quinta-feira, agosto 06, 2015

Os Lados A e B(arbalha) do Brasil




Com quantos BÊs se soletra Brasil? Talvez com o mesmo número que se escreve Barbalha. A cidade cearense da região do Cariri é uma gota com o DNA, com as mazelas e com as maravilhas do país que a habita e a compreende.

Nas férias, este Blog esteve na região.  Foi visitar um afilhado, fruto bom dessa terra de muitos pobres, poucos ricos e uma (nova) classe média com desejos tão grandes quanto a imagem de Padre Cícero na vizinha Juazeiro do Norte. Meu anfitrião, prestes a se formar em economia e cursando matemática, arava, aos 5 anos, no sítio dos pais, o alimento e a renda da família. Um B de Brasil Nordestino que, nas últimas duas décadas, cresceu e distribuiu melhor a esperança de futuro.

O trabalho final do afilhado no curso de economia é a decadência da quase escravocrata (o termo é deste blog e não do jovem) agroindústria da cana-de-açúcar local. Segundo a tese do universitário, o bolsa família deu opção ao mal remunerado agricultor de dizer não às péssimas condições de trabalho.

Passeando de moto na garupa do futuro economista-matemático, sinto o doce aroma da garapa e ouço as informações: essas empresas não estavam preparadas para oferecer salários dignos e algumas fecharam ou funcionam precariamente. Políticas sociais libertaram os (semi) escravos e nenhum órgão das três esperas ofereceu capacitação e crédito para o setor se adaptar a momentos mais humanos.

A face agrícola Barbalha não faz feio. É expressiva com a nacional. Seus produtos abastecem a Ceasa do Cariri e os lares da cidade e das vizinhas Crato e Juazeiro.

Barbalha perdeu no açúcar e ganhou na borracha. Nos últimos anos, a região recebeu uma série de fábricas de matéria-prima para o setor de sandálias/chinelas tipo Havaiana-Ipanema-etc. Irmão do afilhado é funcionário de uma das unidades desse polo industrial.

Na economia do lugar, se destacam na paisagem uma cimenteira e uma fabricante de VLT (Veículo Leve sobre Trilhos). A primeira parece estar longe de ser a empresa perfeita para o meio ambiente e o desenvolvimento sustentável. A segunda, conforme confidenciou outro interlocutor, passa por sérias dificuldades com o baixo nível de encomendas. Essa mesmo fonte relata efeitos da crise nacional também no comércio da região. Lojas estariam fechando por falta de clientes.

A irmandade com o Brasil continua em áreas que jogam o IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) da nação para o subdesenvolvimento. As valas a céu aberto cruzam a cidade e os sítios que a completam. Um sistema tão antigo quanto as lindas construções dos séculos XVIII e XIX espalhadas pelo centro.

Violência está aqui e lá. A marca das metrópoles ganha contornos na região alimentada por uma velha conhecida das capitais. A droga que assusta o Rio de Janeiro e São Paulo causa apreensão ao cidadão barbalhense. O craque faz vítima na saúde e no crime.

 Dissonante é o sistema de saúde. Barbalha é um centro de referência do setor para a região e inspira os jovens. As  sobrinhas do principal personagem deste artigo estudam para serem enfermeiras. Fechando esse ciclo, o município é a sede de uma farmacêutica

Os traços mais belos da hereditariedade brasileira são a natureza da cultura e o verde que persistem e insistem em desafiar progresso e modernidade. As nascentes dentro de matas são certezas de descanso e tranquilidade a 40 minutos da praça principal.

Junho, Dia 13, Santo Antônio se encontra com moradores e turistas em manifestação grandiosa de fé e amor ao canonizado mais casamenteiro entre os católicos. Na data sagrada, a Festa do Pau da Bandeira é ímpar pela demonstração de devoção popular e pela tradição que envolve os seus 87 anos. Monumento vivo e sagrado é reconhecido como patrimônio imaterial brasileiro pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN).

Barbalha reflete o Brasil até na medula do sonhado país do amanhã melhor. A esperança identidade mais fiel da nosso subconsciente coletivo é exalada numa inteligente analise do universitário: ao responder a pergunta se ele e a esposa, ambos professores, teriam planos de criar um colégio particular na terra Natal, o afilhado fez a seguinte afirmação: a qualidade do ensino básico público vem aumentando e, no médio prazo, será um forte concorrente do ensino privado. Penso em ter um comércio, disse com o conhecimento de quem trabalha com dados de desempenho de alunos em escola municipal e de quem virou o jogo a seu favor acreditando de corpo e alma na educação e nos livros.



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