sábado, fevereiro 13, 2016

O Romance da Oferta com A Desigualdade

A desigualdade nasce da oferta. Cruzando longa reportagem sobre um economista judeu ortodoxo americano autor de teorias da realidade exploratória brasileira com uma pequena reportagem de chineses radicados no Rio de Janeiro, repito a suposição de abertura deste texto, meio átomo comparada às construções de Nathaniel Hyman Leff, e acrescento: a desigualdade irmã gêmea da concentração de renda é filha legítima  da oferta e da cultura permissiva do sistema local insistentemente chamado de capitalismo por quem o apoia e por quem o combate.

A metade dessa conclusão apressada vem de um artigo do Jornal O Globo abordando o resgate por parte auditores fiscais do Ministério do Trabalho de dois chineses submetidos a regime semelhante ao da escravidão em uma pastelaria em Copacabana, o bairro mais internacional e suburbano do Rio de Janeiro. A outra cara-metade está em texto investigativo impresso nas páginas da Revista Piauí de janeiro relatando a descoberta do paradeiro do vivo ou morto (?) Leff e expondo ideias do século passado desenvolvidas pelo pesquisador iluminando a deformação das relações trabalhistas brasileiras dos anos 1800.

Africanos escravizados e europeus imigrantes sem bens e quase nenhuma escolaridade miscigenaram o excesso de mão de obra com a vocação patrimonialista do decadente Império e da nascente República, defende em outras e mais objetivas palavras o (ex) professor da Escola de Negócios da Universidade da Columbia, em Nova York. Enquanto os Estados Unidos ofertavam terras de índios a desbravadores do Oeste, nossa nobreza tratava o outro como serviu. Acima da linha do Equador, os muitos caciques buscavam por gente para trabalhar e os salários subiam.
Abaixo, a farta oferta de “índios” do velho e do velhíssimo mundos para uma economia acanhada e de capilaridade ineficiente quando existente derrubava a renda e ampliava a diferença entre quem paga e quem recebe. Leff, como aquele terapeuta, retira do colonizador parte da culpa do atraso nosso. Lança a bola para nação afro-euro-tupiniquim dominar no peito e assumir a responsabilidade por esse gol contra.

Os enxutos chineses desembarcaram em massa no Rio de Janeiro a partir dos recentes anos 90 com a tabuada da exploração dentro da mala de dez dólares. Um mais um mais um mais um mais um são cinco trabalhando por 15 com o salário de dois. É a realidade da renda brasileira sobre o cubo da ilegalidade.
Os salários  engordado pela estabilidade e pelas bolsas-programas nas últimas duas décadas continuam sendo fundamentais. E continuam sendo insuficientes para equilibrar a balança da Justiça. O motor da recente crise política-e-aeconômica está puxando a carroça para trás. Desemprego subindo, salários em baixa e inflação corrosiva formam a cesta básica do atual subdesenvolvimento nacional. A fábrica de mão de obra barata está em pleno vapor no país de Gonçalves Dias.

A terra onde nascem as palmeiras para o sabiá cantar é fértil para quem é dono dela. As leis que protegem os trabalhadores não os fizeram nem dono da ave que aqui gorjeia. Sem crescimento sustentável e políticas de distribuição digna de educação, saúde, moradia e renda, as teorias de Left e as práticas dos chineses estarão aí para escancarar a nossa condição de gestores de relações inspiradas no modelo esculpido no século XIX.

P.s. Na década de 80, antes dos chineses, a escravidão foi reeditada pelos portugueses da máfia do caça-níqueis. E este blog fuginda senzala lusa de Copacabana (olha Copacabana de novo aqui, gente). Meu pai marceneiro conseguiu uma vaga para o filho técnico de eletrônica na produção das máquinas de enganar jogadores. Ele fez as caixas de madeira... e eu ajudaria nas soldas e nos testes do sistema. Comecei a trabalha e percebi que a exigência de horário começava e terminava na entrada. Sugeriram uma jornada até o fim da noite e a possibilidade de dormir em um apartamento onde estavam todos os portugueses traficados para o trabalho sem registro e sem regras. Pedi minha carteira de volta e aproveitei o desemprego passeando na casa dos tios do amigo de infância Zé Ricardo, na nobre Petrópolis!

(*) Link para assinantes da Piauí.  http://revistapiaui.estadao.com.br/materia/procura-de-leff/?hc=MWVmMDMwZGRhN2IwNGExMTZkMDk1ZjIxNWMxMDI5Y2U

(**) Link do Jornal O Globo. http://oglobo.globo.com/rio/chineses-estariam-fazendo-trabalho-escravo-18538705

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